POR QUE NÃO TE CALAS e UMA BOA SOBREMESA

 

 
 Por quê não te calas?
 

Elen de Moraes
 
Durante o encontro Ibero-Americano, no Chile, em novembro último, o Presidente da Venezuela, mesmo sem som no seu microfone, desandou a falar, interrompendo o discurso do Primeiro Ministro da Espanha, José Luiz Zapatero, que sem perder a elegância ou levantar o tom de voz, se viu obrigado a defender seu antecessor, José Maria Aznar, das acusações de fascista que lhe fazia o Sr. Hugo Chaves. Lá pelas tantas, já irritado com as interrupções, o Rei Juan Carlo de Bourbon, da Espanha, fez a pergunta que correu mundo, dividiu opiniões, foi impressa em camisetas, virou som de celular, além de piadas na Internet, na televisão, nos jornais e nas reuniões de amigos: “Por quê não te calas?”
Sem entrarmos no mérito da questão para saber qual dos dois estava com a razão, se o Rei da Espanha ou o Presidente da Venezuela, podemos usar tal episódio para refletirmos sobre o nosso comportamento em relação aos nossos interlocutores. Quantas vezes já mandamos alguém que falava desbragadamente, se calar ou fomos tentados a fazê-lo e não tivemos coragem?
Será que sabemos qual é a medida certa para falar e ouvir? Para os chineses, sábio é aquele que ouve mais do que fala e dizem que se temos dois ouvidos e uma boca, significa que devemos falar menos e ouvir mais. Segundo Stephen Covey, saber ouvir talvez seja a habilidade comunicativa mais difícil de dominar.
Há pessoas que se julgam comunicativas e simpáticas por dominarem qualquer assunto e falam o tempo todo, emendando uma história na outra, não permitindo aos seus ouvintes colocarem seus pontos de vista e se são interrompidas, enervam-se. Nos relacionamentos amorosos, ouvimos de vez em quando, um dos parceiros dizer que viveu com o outro tantos anos e que não o reconhecia capaz de tomar uma determinada atitude. Talvez essa pessoa falasse sem parar, sem dar chance à outra de se colocar, de se fazer conhecer ou, ao contrário – e pior ainda – a outra falasse e ela fazia ouvido mouco, sem lhe dar atenção.
Um erro grave é o falador que gosta de fazer confidências. Já diz um ditado bem popular “que o pior e o mais temido inimigo é aquele que já foi nosso amigo”, aquele que sabe tudo da nossa vida e da nossa intimidade e que de um instante para o outro, se torna nosso desafeto. Num momento de ira, para se vingar, tudo o que lhe foi contado em tom de confidência, vem à tona. Exemplo típico é aquela pessoa que trai o cônjuge e sempre conta para o seu melhor amigo/amiga, para desabafar (ou contar vantagens mesmo!). Esse amigo conta para o melhor amigo e assim por diante… No final, todo mundo fica sabendo e todos fingem que nada sabem, até o dia em que o amigo se torna inimigo. Aí, pronto, está armada a confusão. Pior do que isso, só mesmo aquela pessoa que fala mal do amigo, para o seu melhor amigo. Se se tornam inimigos, perde-se dois amigos ou mais.  Fazer o quê? Nada! Como diz a minha mãe, só o que resta é enfiar a viola num saco e ir cantar noutro lugar.
 Entretanto, mais desconcertante do que quem fala muito é aquele que interrompe quem está falando, cortando sua conversa pela metade, como se já soubesse o que a outra pessoa vai dizer. Ao longo desses anos tenho observado que quem muito gosta de falar não freqüenta missas nem cultos, porque lá os Padres e Pastores falam sozinhos, entregam o “Sermão” dando, muitas vezes, suas “tacadinhas” e seus puxões de orelhas, nos fieis, como diz o meu amigo José M. Raposo, e o falador se vê obrigado a responder tudo só em pensamentos, brigar com suas opiniões, com elas discordar, etc., e o máximo que pode fazer é resmungar ou sair do recinto. Sentar-se ao lado de uma pessoa assim, numa Igreja, é certo que vai se divertir ou muito se chatear.
O reverso do falador, claro, é quem nada fala, quem se tranca num silêncio aterrador e dá a impressão que o mundo pode desabar a seu redor que ele não vai se sujar com a poeira. Há o chato que muito fala e o chato que nada diz. Desanimador conversar com alguém que só responde ao que se pergunta e mesmo assim sempre fica a parecer que respondeu por educação. Dessas pessoas todos fogem, como fogem de quem muito fala.
Saber ouvir não é ficar calado o tempo todo e sim interagir, dar suas opiniões no momento oportuno ou sempre que for solicitado. Saber ouvir é não se mostrar impaciente, é não se comportar como se o assunto não interessasse, olhando para quem fala, com o pensamento longe dali. Agindo assim, torna-se tão (ou mais) desagradável do que quem fala demais. É preferível interromper a conversa, gentilmente, dando uma desculpa delicada, do que ficar ouvindo, impaciente, por ter outro compromisso ou porque a conversa não está agradando.
Quem fala muito, pensa pouco, e quem pensa pouco, acaba falando o que não deve e esse é o caminho mais curto para os desentendimentos. Por isso, aos amigos mais chegados, eu sempre peço que contem até 10, antes de responder a uma provocação, uma palavra mais ácida. E se contar até 10 não for suficiente, que contem até 100. Enquanto isso, pensem! É um exercício muito fácil, porque antes do final da contagem a gente percebe que a má resposta não vai valer a pena de se perder um bom amigo, numa hora quando ele pode estar nervoso por qualquer outro motivo.
Não falo isso de mim e, sim, baseada no que Jesus ensinou: ao Lhe perguntarem quanto ao alimento ingerido, o que era impuro, Ele respondeu que tínhamos que tomar cuidado não com o que entrava em nossa boca e sim com o que dela saia, dizendo com isso que deveríamos ter cuidado com o que falávamos.
Bom se, de vez em quando, nos colocássemos no lugar do Rei e disséssemos para nós mesmos:
– Por que não te calas? 
 

 

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mais uma publicação nossa no jornal
 "Tribuna Portuguesa" da CA. 
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