OUVINDO ESTRELAS e OS EFEITOS DA ARRUDA

 


 Amigos,

mais uma publicação nossa no jornal
 "Tribuna Portuguesa" da CA.
Acessem o link abaixo:

http://www.aosabordovento.kit.net/aosabordovento/elen_e_jose_19-05-2008.pdf

Necessário um programa leitor PDF.
Se não o possuem, baixe  rapidamente acessando o link:

http://baixaki.ig.com.br/site/dwnld907.

 

OUVINDO ESTRELAS…

ELEN DE MORAES

 

Ainda te vejo embaraçada e sorridente entre o farfalhar das folhas outonais, amarelecidas, que coalhavam o chão daquele parque e o assovio do vento que rodopiava por entre as árvores centenárias e, brincalhão, remexia os teus cabelos e levantava a tua roupa… E eu, sem entender a tua preocupação, ora em tirar as mechas revoltas do rosto, ora tentando segurar a saia ampla, de tecido sedoso e flores miúdas, junto ao corpo frágil e delicado, com a intenção de protegê-lo dos olhares curiosos, me divertia com o esforço inútil que fazias
Minhas mãos de inocência, buscando te ajudar, procuravam desviar a direção do vento para que não desmanchasse os cachos dourados, que escorregavam pelos teus ombros e reluziam, preguiçosamente, sob os raios mortiços do sol, naquelas manhãs outonais.
O teu jeito seguro, que eu tanto admirava, me dava certeza da tua proteção e de como estavas atenta a tudo que acontecia à minha volta.
Embevecia-me aquele teu meio sorriso, sem abrir os lábios, o que contribuía para ressaltar as covinhas que se formavam ao lado da tua boca, que eu apertava, às gargalhadas, só para receber os teus beijos que eram depositados em diversas partes das minhas bochechas afogueadas…
Tudo em ti era bonito e assentido por mim. Só os teus longos silêncios eu não aprovava, porque o som da tua voz me era tão bonito e melodioso quanto o doce sonido das águas que rolavam sobre as pedras, da pequena cascata do parque, que eu não cansava de ouvir…E quando eu reclamava, tu me abraçavas e pedias que eu fosse brincar, porque querias aproveitar aqueles instantes, a sós, para conversar com a tua alma. Eu dava um muxoxo e sacudia os ombros em sinal de descontentamento, pois o  trinado dos pássaros, os galhos pesados das velhas árvores balançando suas copas, umas de encontro às outras, sim, esses sons eu distinguia, entretanto, como tu, eu também queria ouvir a tua alma e não conseguia…
Entre magoada e distraída com tais conjecturas, seguia o movimento do teu dedo indicador sobre teus lábios, numa delicada exigência de silêncio… Teu cenho franzido e os teus olhos pediam, uma vez mais, que eu não risse alto, não fizesse tantas perguntas ou pisasse com força nas folhas mortas, como gostava de fazer, para ouvi-las chiar sob meus pés…
Sem me dar conta, prendia a respiração enquanto policiava os teus olhos que se soltavam dos meus e se voltavam em direção ao céu e ali permaneciam, perscrutando a imensidão. E eu insistia, querendo saber sobre a alma e tu, sem nenhum resquício de impaciência, apontavas para meu peito e dizias que ali morava minha alma, mas que para ouvi-la eu teria que conversar com as estrelas…Cada vez entendia menos, pois eu não via estrelas no céu durante o dia, porém, me explicavas que elas estavam lá, mesmo que não as víssemos.
Depois de tantas e complicadas perguntas e das tuas respostas sem nexo, para o meu néscio entendimento, eu me distraia correndo, ora atrás das numerosas borboletas pousadas na grama, ora tentando agarrar as folhas que se desprendiam dos galhos e voavam, levadas pelo vento. Algumas vezes interrompia as minhas brincadeiras e as tuas silenciosas conversas, para que prendesses uma flor nos meus cabelos castanhos  acinzentados e encaracolados, tão sem graça e tão diferentes dos teus…
E eu te vigiava de longe, porque tinha medo que o vento te levasse de mim, tinha medo que o som da tua alma te arrebatasse e que partisses em busca de alguma coisa que eu não sabia o que era, mas que tu vivias a procurar…
Às vezes, tinha a impressão de te ouvir falando sozinha, outras, parecia-me ver lágrimas nos teus belos olhos cor de mel.. Nesses momentos eu corria para os teus braços achando que uma fada poderia te encantar e te roubar de mim. Com esses pensamentos, eu me pendurava em teu pescoço e te apertava de encontro ao meu coração, para que não fugisses… Então, encolhia-me, num gesto de carinho para reter tua cabeça junto da minha. Como era gostoso, naqueles instantes, sentir teus braços me enlaçando, protetores!
As horas não eram intermináveis porque não as contávamos. Simplesmente elas aconteciam. E foram tantas manhãs, tantos abraços, tantos sorrisos e tantas crianças que chegaram naquela casa! E tantos anos que se passaram….
No livro do tempo, as páginas foram sendo viradas, lentamente, sem que déssemos conta…
Teus cachos dourados deram lugar ao prateado dos cabelos curtos; teu corpo esguio e perfeito, curvou-se, suavemente; teu andar lépido, desacelerou-se e o teu meio sorriso perdeu-se em divagações, sem, no entanto, deixar de lado a ternura de sempre.
Ainda te vejo conversando baixinho, de vez em quando. Talvez, agora, com as três “crianças” – das seis que povoaram tua vida – que, apressadas, partiram e te deixaram atônita, sem saber o que fazer de alguns dos teus abraços, com a dor estampada no olhar, cujo brilho o tempo não apagou, mas, que imerge nas lágrimas abundantes que, de vez em quando, não consegues controlar.
Agora, já não corro atrás das borboletas, nem tento impedir que o vento faça esvoaçar os teus cabelos, tampouco tenho medo que uma fada te leve daqui, entretanto, com firmeza, entrelaço minhas mãos nas tuas, amorosamente, para te reter junto a mim, pois tenho medo, isto sim, de me perder de ti, antes que nosso tempo termine.
Hoje, posso ouvir o teu silêncio e conversar com as estrelas, em pleno dia, como te via fazer, na minha meninice, porque agora, mãe querida, eu consigo escutar as inefáveis melodias da tua alma, que se desprendem do teu peito e se elevam aos céus, trilhando caminhos estelares, em feitio de oração…

Dedicado às mães.

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