UM E-MAIL DO ALÉM – Assunto: Infelizmente, o mesmo!

 
 
 
 
 
 
 
Para ler o artigo no
Tribuna Portuguesa, online, 

 

acessar o arquivo de 15-07-2010
 

 

 
 
 
 
 

UM E-MAIL DO ALÉM…

Assunto: Infelizmente, o mesmo!

 

Elen de Moraes

Num sitio da internet onde portugueses e brasileiros se congregam, o assunto tem sido, ainda e infelizmente, “putas brasileiras”, como escreveu numa crônica, há uns dias, um jornalista português. Bastou, para o incêndio! Defesas e acusações dos dois lados. Mexeu até com quem já partiu para a eternidade, pois de lá recebi um e-mail, com o seguinte teor:

“Olá amiga, o assunto é longo. Acomoda-te!
Escrevo-te porque fui chamada à presença do Chefe e incumbida de uma difícil missão e quero dividi-la com alguém. Levei um grande susto com o chamado. A dúvida embaraçou-me antes que meu cérebro a digerisse. Achei que tinha feito algo errado. Não que eu não erre! Reconheço que “piso na bola”, mas Ele, amorosamente, me tem alertado sobre esse meu jeito de ferver em água fria (expressão roubada aos portugueses).

Sosseguei meu receio ao inteirar-me da incumbência: pesquisar os motivos de tantas discussões entre brasileiros e portugueses. Reclamações chegam de ambos os lados, argumentou. Pareceu-me preocupado, haja vista que os ânimos se acirram. Pelo que apreendi do Seu olhar, o tempo vai fechar!

Sabe, aqui vivemos em paz celestial. Portugueses e brasileiros unidos, feito unha e carne! Isso se deve à Sabedoria do Chefe que promoveu, divinamente, a harmonia. Explico: ao chegar, informaram-me que brasileiros ficam sob orientação dos portugueses e vice-versa. Dão-nos a prerrogativa de escolher sob as ordens de qual famoso orientador queremos ficar. Perguntei se era penitência. Disseram que não, embora tenha notado certo riso disfarçado no canto dos lábios daquele Senhor simpático que me recebeu.

Adivinha quem escolhi! Camões, claro! Não poderia ser outro, porém, depois me arrependi: quem optou por Bocage, ri e se diverte o tempo todo e nós, camonianos, trabalhamos, estudamos e nas horas vagas aprendemos sobre as aventuras dos navegantes e do império português que fundaram além mar.

Camões é exigente e sisudo. Chama-me a atenção pelas mínimas coisas, diz que falo gírias demais, que rio e falo alto, o que não fica bem para uma mulher e de uns tempos para cá cismou que ando a “paquerar” o Fernando Pessoa. Devo admitir meus suspiros por aquele homem misterioso, mas, é só! Ele vive às voltas com os “seus outros EUS”!

Entretanto, o que mais irrita Camões é quando misturo inglês com a nossa língua. Fica irado! No Brasil, as duas línguas se juntam em total desarmonia e a gente se vicia e fala errado. São out-doors anunciando a new fragance, o layout da comida express e delivery, os fitness, a roupa fashion, sem falar dos programas para os computadores. Camões, por mais que eu me desmanche em motivos, não aceita que o brasileiro se deixe comprar e vender pelo que fala e come.

Estou aflita: descobri que vou passar a eternidade todinha com Camões. Céus! Ele só me permitirá ir para outro departamento quando eu estiver falando a pura língua portuguesa, a que se fala em Portugal, sem gerúndios, estrangeirismos, gírias e sem comer o final das palavras. “Tadinho”! Não tive coragem de lhe contar sobre o que as novelas brasileiras fazem por lá. Os miúdos desaprendendo o português e  juventude a passear pelos calçadões. Cá entre nós, amiga, vai ser uma longa eternidade até Portugal voltar a ser o que era… Se bem que eu tenha aprendido a aceitar Camões com seu jeitão calado e irascível. Às vezes eu o pego me olhando e coçando a barba e outro dia me disse que numa hora dessas vai me levar a passear e explicar o porquê de ter escrito que o “amor é fogo que arde sem se ver”. Não entendi! Depois te conto!

Esquecia-me do motivo principal desta carta: as “putas brasileiras”, como se fala por lá. Camões diz que a culpa é da língua que possui palavras iguais, com significados diferentes. Não creio! No português coloquial do Brasil, prostituta é a mulher que faz sexo, profissionalmente, por dinheiro (nada a impedir que sintam prazer) e puta, a que faz sexo só pelo prazer, com mais de um parceiro, tipo a mulher casada que tem amante. E é só no Brasil que isso acontece? Fala sério! Daí a revolta quando alguém se refere dessa forma às mulheres brasileiras, como se todas fossem iguais. Talvez a intenção de quem fala seja ferir mesmo. A maioria, incluindo-me, tem aversão à palavra e penso que a ojeriza nasceu no dia em que Cabral desembarcou no Brasil, com todos seus homens em jejum e se depararam com as índias, belas e peladas. Será que ninguém imagina o que aconteceu? Pero Vaz de Caminha não relatou esses fatos (ou factos?) naquela carta, todavia, o assunto já foi matéria de pesquisa numa Universidade. Talvez, a partir daí, tenha nascido o amor de tantos portugueses pelas brasileiras e o pavor das brasileiras pela palavra em questão.

Para terminar, uma dica: avisa aos portugueses que gostam de músicas e poesias para escolherem Vinicius de Moraes como Orientador: a turma dele aqui em cima, só faz cantar, escrever e admirar as garotas de Ipanema.

Chega de prosa por hoje!
Obrigada por me ler.
 Até mais!”


 

 

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